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As mãos e a tecnologia

Trabalho com as mãos. Sou artesã. Sempre amei os trabalhos manuais, mas apenas há 5 anos me entreguei a essa paixão e há 2, passei a tê-la como profissão.

As mãos são as responsáveis por cada detalhe carinhoso ao qual me entrego. Mas não são as únicas. Não é apenas manual o trabalho de um artesão – é também, e talvez, principalmente, criativo, inventivo, intuitivo. As mãos apenas realizam parte de tudo o que é pensado, sentido.

Quando comecei a fazer bonecas, bordava todos os olhos à mão. Ficava um trabalho único e muito bonito. Conforme os pedidos aumentaram, essa tarefa tornou-se impossível. Recentemente, comprei uma máquina doméstica de bordar. E escutei que, por causa da tecnologia, meu trabalho não era mais artesanal. Isso me deixou matutando: o que torna, então, meu trabalho artesanal?

As bonecas das fábricas são feitas em série. Muitas e muitas por hora. São todas idênticas. Tem muito pouco contato humano em sua produção. Cada boneca que faço, ainda que tenha o rosto bordado por uma máquina, é toda elaborada e feita somente por mim. É através do meu calor e do meu carinho que elas nascem, sempre em um tempo maior que uma hora – na verdade, em alguns dias. Sou eu que alfineto cada pedacinho, que coordeno cada detalhe e que me esforço para que nenhuma seja igual à outra. Este não é um trabalho artesanal?

Conversando cá com meus botões, lembrei-me que nem todo artesanato é manufaturado. O artesão, por definição, é aquele que domina a técnica e aí pode encaixar-se a tecnologia. Ele produz objetos únicos, cheios de uma humanidade vazia nas fábricas. Cada peça possui a sua marca, o seu jeito único de arremate, de composição, tendo ou não usado de nossas facilidades contemporâneas – as máquinas, por exemplo.

O trabalho de um artesão aproxima-se mais com o de um artista do que com o de uma fábrica. Criamos nossos artefatos imbuídos daquela intuição fascinante que preenche o músico, o poeta, o escultor, o fotógrafo, o artista plástico… E ainda que as máquinas tornem nosso trabalho mais fácil, às vezes, melhor acabado ou mais resistente, elas não são o único meio em que nos realizamos. Realizamo-nos neste meio do caminho entre fábrica e arte, entre técnica e obra, entre o que somos de concretos e reais, por fora, e o que somos de poesia e intuição, internamente.

(Texto escrito originalmente para o blog do Compro de Quem Faz, aqui.)

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O artesão e os olhares alheios

Toda profissão tem seus desafios. A de artesão não poderia ser diferente. Um dos desafios que mais me chama atenção – e que mais me incomoda – é um certo olhar de pena não só para o nosso trabalho, mas também para nós mesmos, os artesãos.

Aqui no Brasil, não posso falar por outros países, há um certo preconceito, a palavra “artesanato” parece ter adquirido um sentido pejorativo, como se fosse sinônimo de sofrimento, de pessoas “coitadas” com dificuldades, como se quem o faz não pudesse fazer nada mais nada na vida e essa não fosse uma opção.

Um dos comentários que mais escuto, muito bem intencionados da parte de quem os faz, eu sei, é “nossa, é uma terapia, né?”. Sim, é uma terapia. Mas os esportes, a internet, os vinhos e as cervejas, a gastronomia, tudo, enfim, pode ser uma terapia, se nós nos apaixonarmos por aquilo que fazemos. O artesanato ajuda muito pessoas com todo tipo de problemas que o procura? Sim, com certeza. Eu mesma saí de uma depressão seríssima depois que me encontrei nessas artes.

Mas tornar o artesanato seu novo modo de vida não significa que você é um coitado – até porque, nem quem o faz como terapia seja, mesmo, um coitado. Significa que você fez uma escolha, assim como com qualquer outra profissão. Significa que você estuda, planeja, dedica-se, vira a madrugada, desdobra-se para tornar-se especialista, para tornar-se um profissional melhor. Mais uma vez, igual a todas as outras profissões.

Minha vendinha na praça! (foto – arquivo pessoal)

Sendo assim, por que as pessoas têm tanta dificuldade de entender e aceitar isso? Nesses últimos dias, pondo a cara pra bater na rua, ao sair para vender minhas bonecas, pude perceber isso melhor. Não me incomodo com quem sente piedade. Me incomodo com as caras esnobes e de nojo que recebo ao sorrir, vendendo alegremente meus produtos. É como se eu tivesse uma doença contagiosa, ou como se aquilo que faço não fosse digno o suficiente. Isso me tira tanto do sério. Sei que não deveria me irritar, mas… As pessoas são capazes de pagar centenas de reais por produtos tão artificiais e superficiais e são incapazes de, ao menos, abrirem um sorriso para aqueles que trabalham com tanto amor ali perto delas.

Por isso, falo mais uma vez do movimento “Compro de quem faz“. marca-completa-coloridaMovimentos assim contribuem para que a sociedade passe a ver de modo mais claro e menos pejorativo o artesanato produzido ao seu redor. Além de ser uma causa sustentável, ele colabora para aproximar as pessoas que já estão perto e que podem ter tanto em comum, valorizando tanto o trabalho local quanto as relações humanas.

É preciso ter cuidado com esse sentimento de piedade. Nem sempre é o que o outro precisa. Muitas vezes, quem está ali do outro lado precisa, mesmo, é de um reconhecimento da qualidade de seu trabalho, sem dó, sem sentimentalismo.